Como Conseguir uma Vaga de Desenvolvedor em 2025

Disclaimer: Although I usually write my posts in English, I decided to write this one in Portuguese as I want to discuss the reality of the Brazilian job market. If you want to watch a great video that inspired me to write this post and talks about the global market, I highly recommend this video by Theo.

Vou ser direto com você. Se você está procurando mais um daqueles posts motivacionais sobre como "se você se esforçar o suficiente, vai conseguir", pode fechar a aba agora. Sabe aqueles posts no LinkedIn falando que "basta acreditar nos seus sonhos" ou que "todo mundo tem a mesma oportunidade"? Pois é, este post não é nada disso. A realidade do mercado é muito mais complexa e, francamente, bem menos inspiradora do que aquelas histórias bonitinhas que seu bootcamp adora compartilhar.

Depois de anos trabalhando como dev, vendo centenas de processos seletivos e, principalmente, observando como as pessoas REALMENTE conseguem empregos (spoiler: geralmente não é mandando currículo no LinkedIn), quero compartilhar como as coisas funcionam de verdade. Não vou te dar falsas esperanças, não vou fingir que o mercado está incrível, e definitivamente não vou te dizer que "basta estudar" que você consegue um emprego.

O Jeito Difícil (Ou: Como Competir Com 3000 Candidatos)

Ah, o famoso processo seletivo tradicional. Aquele que seu professor na faculdade falou que era o caminho certo. Você abre o LinkedIn, vê uma vaga que parece legal (provavelmente com uns 15 requisitos diferentes e pagando metade do que deveria), prepara aquele currículo caprichado, escreve uma carta de apresentação personalizada falando o quanto você sempre sonhou em trabalhar naquela empresa que você nunca tinha ouvido falar até 5 minutos atrás.

Pra completar o ritual, você ainda pesquisa a cultura da empresa, stalkeou o LinkedIn do CTO, e até deu uma olhada no Glassdoor pra ver se o ambiente não é tóxico demais (spoiler: geralmente é). Aí você manda sua aplicação e... nada. Silêncio absoluto. Nem um email automático dizendo "vamos guardar seu currículo no banco de talentos" (que todo mundo sabe que é só um jeito educado de dizer "não vamos te chamar nunca").

E sabe por que isso não funciona mais? Vamos aos números: segundo o layoffs.fyi, em 2023, 1.193 empresas de tecnologia demitiram funcionários, resultando em 264.220 profissionais perdendo seus empregos. Em 2024, já são 545 empresas e 152.074 demissões. Isso mesmo, mais de 400.000 pessoas com experiência real de mercado estão procurando emprego junto com você. Aquele cara que trabalhou 5 anos no Nubank? Desempregado. A dev senior da Microsoft com 8 anos de experiência? Também está mandando currículo.

Se antes as empresas contratavam júniors apostando no potencial (principalmente porque não tinham escolha), hoje elas têm uma fila de desenvolvedores seniors implorando por trabalho. Pensa comigo: se você é um tech lead precisando contratar dois devs pro seu time, e você tem a opção entre alguém que já escreveu sistemas em produção usados por milhões de pessoas versus dar uma chance pra alguém que fez um CRUD no bootcamp... bem, você entendeu né?

E se não bastasse toda essa concorrência injusta, as inteligências artificiais vieram piorar ainda mais a situação. Não, a IA não vai roubar seu emprego (ainda, mas isso é assunto pra outro post). O problema é que agora TODO MUNDO usa ChatGPT pra gerar currículo, carta de apresentação, resposta de teste técnico, projeto no GitHub, descrição de experiência profissional, e basicamente qualquer coisa que dê pra colocar em forma de texto... Na Tucupy, empresa onde trabalho atualmente, já chegamos a receber dezenas de currículos e cartas de apresentação claramente gerados por IA - muitas vezes com o mesmo padrão de escrita, mesmas frases e até os mesmos "projetos pessoais". Os recrutadores já conseguem identificar de longe quando o texto foi gerado por IA, e geralmente essas aplicações vão direto pro fim da fila.

O resultado? A maioria dos recrutadores nem tenta mais filtrar direito. Se uma vaga recebe 3000 currículos (o que é super comum hoje em dia), você acha mesmo que alguém vai ler todos? Na melhor das hipóteses, vão olhar os primeiros 100 que chegaram. Na pior, vão usar algum software de ATS que vai descartar seu currículo porque você escreveu "ReactJS" em vez de "React.js", ou porque não listou exatamente as 47 tecnologias que eles colocaram como "requisitos essenciais" (das quais provavelmente só usam 3 no dia a dia).

Um Jeito Menos Difícil (Ou: O Poder da Indicação)

Agora vem a primeira verdade inconveniente: a maioria das vagas boas nem chega a ser anunciada publicamente. Aquela vaga dos seus sonhos? Provavelmente já foi preenchida antes mesmo de aparecer no LinkedIn. Quando um time precisa de alguém novo, o processo geralmente é mais ou menos assim:

Primeiro, o tech lead pergunta pro time: "Galera, vocês conhecem alguém bom pra essa vaga?" Se alguém do time indica um conhecido, essa pessoa já tem 80% de chances de ser contratada. Por quê? Porque se você já trabalhou com alguém, você sabe EXATAMENTE como essa pessoa é. Sabe se ela realmente sabe do que está falando, se entrega o que promete, se não vai criar drama no time, se não vai passar o dia inteiro reclamando no Twitter em vez de trabalhar.

É muito menos arriscado do que contratar um desconhecido que pode ter um currículo inteiro gerado por IA e que aprendeu a responder perguntas de entrevista decorando respostas do LeetCode. Por isso que manter contato com ex-colegas de trabalho é absurdamente importante. Aquele seu amigo que foi pra outra empresa? Não perde o contato. Aquela dev que você ajudou num projeto há dois anos? Manda mensagem de vez em quando nem que seja só pra perguntar se ela ainda usa PHP.

E não é só sobre contatos diretos. Participar ativamente da comunidade dev faz TODA diferença. Escrever sobre o que você está aprendendo (mesmo que você ache que é básico demais), compartilhar conhecimento em blogs ou redes sociais, contribuir com projetos open source de um jeito que realmente agregue valor (não é só corrigir erro de digitação no README pra ganhar quadradinho verde no GitHub).

Quando você compartilha conhecimento consistentemente, mesmo que seja só documentando aquele bug bizarro que você passou 3 dias pra resolver, as pessoas começam a te ver como alguém que sabe do que está falando. E adivinha? Quando essas pessoas estiverem procurando alguém pra contratar, você não vai ser só mais um currículo na pilha gigante de "fullstack ninjas" e "10x developers".

O Jeito Mais Fácil (Ou: Vamos Falar de Nepotismo)

Sei que essa palavra incomoda muita gente, mas vamos ser honestos: no Brasil, nepotismo não é só comum, é praticamente um pilar do mercado de trabalho. E não estou falando só do "filho do dono" (embora isso também aconteça MUITO). Estou falando de toda aquela rede de favores e indicações que move o mercado brasileiro desde sempre.

Seu tio trabalha numa empresa que está contratando devs? Ótimo. Seu primo tem uma startup? Melhor ainda. Aquele amigo dos seus pais que sempre fala que você é "bom com computador" e trabalha numa empresa grande? Cultive essa conexão como se sua vida dependesse disso (porque, em termos de carreira, talvez dependa).

É justo? Obviamente não. É meritocrático? Nem um pouco. É como as coisas funcionam? Absolutamente. E ficar indignado com isso não vai mudar nada - acredite, já tentamos. O que muita gente chama de "networking" é basicamente nepotismo com um nome mais chique e um filtro do LinkedIn. A única diferença é que você pode (e deve) construir sua própria rede de relacionamentos, mesmo não tendo nascido numa família "bem conectada".

Então, O Que Fazer?

Se você está procurando emprego em 2025, suas opções são essas, da mais difícil pra mais fácil: você pode entrar na guerra dos processos seletivos públicos, competindo com literalmente milhares de pessoas e rezando pra algum recrutador realmente ler seu currículo. Pode investir em construir uma rede profissional sólida, mantendo contato com ex-colegas e sendo ativo na comunidade (o famoso "networking" que mencionei acima). Ou pode usar seus contatos pessoais - sim, aquele tio, aquele primo, aquele amigo dos seus pais que você só vê em churrasco de família.

O ideal é tentar todos esses caminhos ao mesmo tempo. Continue mandando currículo? Claro, vai que você tem sorte. Mas também vá em eventos presenciais quando puder (sim, aqueles eventos chatos de tecnologia onde todo mundo finge que está super interessado em palestras sobre microserviços), mantenha contato com ex-colegas, escreva sobre o que está aprendendo, e sim, fale pra todo mundo que você conhece que está procurando emprego. Todo mundo mesmo. Até sua tia que trabalha no banco e não sabe a diferença entre JavaScript e Java pode conhecer alguém que está precisando de um dev.

Um Último Aviso

Tem muita gente que entrou nessa área só pelo dinheiro. E olha, eu entendo completamente. Todo mundo viu aquelas manchetes sobre dev junior ganhando 5 mil, dev pleno ganhando 10 mil, e pensou "é isso que eu quero da vida". O problema é que, com a IA avançando cada vez mais (e acredite, ela está avançando MUITO mais rápido do que a gente gostaria de admitir), quem não gosta realmente de tecnologia vai ter dias muito difíceis pela frente.

Não precisa ser aquele dev super apaixonado que programa 16 horas por dia e sonha em codigo. Mas se você não tem pelo menos um pouco de curiosidade genuína sobre como as coisas funcionam, se você não consegue passar mais que 15 minutos tentando resolver um problema antes de copiar a primeira resposta que aparece no Stack Overflow, vai ser muito difícil se manter relevante nos próximos anos.

E outra coisa: não fique sozinho nessa. O mercado tá difícil demais pra tentar navegar sem ajuda. Entre em comunidades, faça amigos, troque ideia. Mesmo que você não consiga uma vaga por indicação, pelo menos vai ter gente pra compartilhar as frustrações do caminho (e acredite, vão ter muitas) e comemorar junto quando você finalmente conseguir aquela vaga. Porque você vai conseguir. Só talvez não do jeito que você imaginava.